
Nesses últimos dias resolvi começar a ir para as aulas da tarde, do cursinho, caminhando. São curtos e produtivos três quilômetros de famoso modo “pé-dois”, que dariam uma boa forma de meditação, se não fossem os quilos de livros nas costas. Neste tempo, posso pensar em vários assuntos, tomar um sol, praticar um exercício saudável e assobiar algumas musica que tocam no meu mp3 com tranqüilidade, até chegar ao destino.
Mas o passatempo favorito é prestar atenção nas pessoas e suas características. As 13h o movimento é fraco, às 18h, hora de retorno, o movimento, apesar de intenso, torna as pessoas mais sisudas. Todas parecem ter um sério problema a resolver, uma pedra no caminho da felicidade e algo que as impossibilitem de apreciar aquela casa que antes tinha o muro branco e hoje adquiriu uma pintura verde escura (e provavelmente amanhã já estará pichado).
Cheguei até a pensar que não encontrariam ninguém sorrindo pelo caminho. Vi homens de gravata em carros cinza sem placa, sérios; mulheres arrumadas subindo o caminho da faculdade; gente voltando do trabalho apressadas e estressadas, apesar disso ser uma cidade de interior que nem metro tem. Cheguei a travar dialogo com um senhor, de olhar baixo e aspectos cansados, que parecia bravo com a hora do rush e motoristas que não “dão seta”: “Ta vendo, tudo loco, dirigem que nem malucos!”.
Conformei-me e deixei a busca por um sorriso outro dia. Foi quando passei por uma mulher que carregava três caixas de papelão cheias de vários materiais recicláveis. Eram tantos que cada passo parecia ser calculada para não derrubar, quando já tinha ultrapassado e estava alguns metros à frente, ela grita: “ô seu moço! Me ajuda”. Girei nos tornozelos e fui ajudá-la a organizar o que havia caído, eram varias garrafas Pets e latinhas. Terminado o meu bom-samaritanismo, recebi o tão espero sorriso do dia, acanhado e tímido, como se eu fosse desaprovar a situação daquela mulher, mãe de muitos. Era o que era: um autentico e exemplar sorriso. Talvez a situação da mulher permitisse mais motivos para ela não sorrir, mas ainda assim ela o fazia, com receio tal qual seu cuidadoso andar. Mas era um sorriso e eu sorri de volta, agradecendo o mesmo.
